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Caso Clínico: Transtornos alimentares | Ligas

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Identificação do paciente

A.C.M., 17 anos, brasileira, estudante do ensino médio, branca, heterossexual, sem religião, solteira.

Queixa principal

A paciente reclama que não consegue controlar a sua fome e acaba comendo mais do que o normal, o que a faz se sentir mal depois.

História da doença Atual (HDA)

A paciente apresenta início dos sintomas aos 15 anos de idade, evoluindo com sentimento de impotência, e alega: “não consigo controlar minha vontade de comer/fome”; “como até sentir preencher um vazio dentro de mim”. Relata que esse comportamento estaria levando a um aumento de peso, se tornando um motivo de piada entre amigos e familiares, o que acaba aumentando seus episódios de compulsão.

Não faz uso recorrente de nenhum medicamento. Alega ter sido orientada por seu psicólogo a procurar ajuda médica, e que dietas com nutricionistas não foram eficazes.

Antecedentes pessoais, familiares e sociais

Além do alegado, a respeito da zombaria de amigos e familiares, relata ter uma família “de bom coração, que só quer seu bem”, por isso acentuam pontos relacionados à alimentação e ganho de peso. Não possui doenças prévias, e no histórico familiar, não consta ninguém aparentado com quadros compulsivos, ou doenças relevantes.

Nega uso de álcool, cigarros ou drogas de uso recreativo. Ao exame psicológico, apresenta quadros de ansiedade. Antecedentes fisiológicos e patológicos sem alterações em saúde física.

Exame físico

Exame físico completo sem alterações

Suspeitas diagnósticas

●     Transtorno de Compulsão Alimentar

●     Anorexia Nervosa

●    Bulimia Nervosa

Diagnóstico

Tendo em vista que, apesar do desejo de atender a família, e controlar o peso, não existe uma busca direta pela magreza, e, não existindo uso de métodos compensatórios para o aumento da ingesta de alimentos e calorias, como dietas restritivas, jejum prolongado, uso de laxantes ou vômito induzido, os diagnósticos de anorexia e bulimia são descaracterizados.

De acordo com o DSM V, o diagnóstico de compulsão alimentar deve atender 4 critérios, ocorrendo ao menos 1 vez por semana, no período de 3 meses: (1) comer de modo mais rápido do que o normal e até se sentir desconfortavelmente saturado, (2) comer grandes quantidades de alimento na ausência da sensação física de fome, (3) comer sozinho e (4) sentir-se culpado ou desgostoso com o episódio; De acordo com as diretrizes abaixo:

A. Episódios recorrentes de compulsão alimentar.

Um episódio de compulsão alimentar é caracterizado pelos seguintes aspectos:

1. Ingestão, em um período determinado (p. ex., dentro de cada período de duas horas) de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiria no mesmo período sob circunstâncias semelhantes.

2. Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio (p. ex., sentimento de não conseguir parar de comer ou controlar o que e o quanto se está ingerindo).

B. Os episódios de compulsão alimentar estão associados a três (ou mais) dos seguintes aspectos:

1. Comer mais rapidamente do que o normal.

2. Comer até se sentir desconfortavelmente cheio.

3. Comer grandes quantidades de alimento na ausência da sensação física de fome.

4. Comer sozinho por vergonha do quanto se está comendo.

5. Sentir-se desgostoso de si mesmo, deprimido ou muito culpado em seguida.

C. Sofrimento marcante em virtude da compulsão alimentar.

D. Os episódios de compulsão alimentar ocorrem, em média, ao menos uma vez por semana durante três meses.

E. A compulsão alimentar não está associada ao uso recorrente de comportamento compensatório inapropriado como na bulimia nervosa e não ocorre exclusivamente durante o curso de bulimia nervosa ou anorexia nervosa.

Especificar se:

Em remissão parcial: Depois de terem sido previamente satisfeitos os critérios plenos do transtorno de compulsão alimentar, a hiperfagia ocorre a uma frequência média inferior a um episódio por semana por um período de tempo sustentado.

Em remissão completa: Depois de terem sido previamente satisfeitos os critérios plenos do transtorno de compulsão alimentar, nenhum dos critérios é mais satisfeito por um período de tempo sustentado. Especificar a gravidade atual: O nível mínimo de gravidade baseia-se na frequência de episódios de compulsão alimentar (ver a seguir). O nível de gravidade pode ser ampliado de maneira a refletir outros sintomas e o grau de incapacidade funcional.

Leve: 1 a 3 episódios de compulsão alimentar por semana.

Moderada: 4 a 7 episódios de compulsão alimentar por semana.

Grave: 8 a 13 episódios de compulsão alimentar por semana.

Extrema: 14 ou mais episódios de compulsão alimentar por semana.

Nesse sentido, pode-se afirmar que a paciente possui um Transtorno de Compulsão Alimentar, pelo caso atender aos critérios descritos no DSM-V

Os indivíduos com Transtornos Alimentares geralmente se sentem envergonhados de seus problemas alimentares e muito comumente tentam ocultar os sintomas. Há alguns gatilhos para o episódio de Compulsão Alimentar, tais como estressores interpessoais, restrições dietéticas, sentimentos negativos relacionados ao peso corporal, à forma do corpo e aos alimentos e tédio.

Discussão do Caso

O que é um Transtorno Alimentar?

Segundo o DSM-V, a identificação de um Transtorno Alimentar se dá em presença de uma perturbação na alimentação ou no comportamento. Essa perturbação é persistente e tem como consequência o comprometimento da saúde física e psicossocial. Os transtornos alimentares são classificados em:

  1. Pica: ingestão de substâncias não nutritivas ou não alimentares por determinado tempo;
  2. Transtorno de ruminação: regurgitação repetida do alimento durante determinado tempo;
  3. Transtorno alimentar restritivo / evitativo: restrição alimentar que não satisfaz as necessidades energéticas;
  4. Anorexia nervosa: persistente restrição calórica, medo de engordar e perturbação na percepção do próprio peso;
  5. Bulimia nervosa: compulsão alimentar, comportamentos que tentam impedir o ganho de peso e autoavaliação influenciada pela forma e peso corporal.
  6. Transtorno de compulsão alimentar: compulsão alimentar por pelo menos uma vez por semana durante no mínimo três meses.

Qual é o tratamento adequado?

O tratamento para Compulsão Alimentar é multidisciplinar. Em uma revisão de literatura realizada por Bloc et al (2019) os tratamentos elencados envolvem Entrevista Motivacional, que auxilia nos processo de mudança de adicções e resultou em diminuição dos sintomas de Compulsão Alimentar; Terapia Cognitivo Comportamental, que reduziram sintomas de depressão e o peso corporal,além de obter melhora na autoimagem corporal em sujeitos com Compulsão alimentar; Terapia de Vida Interdisciplinar com acompanhamento médico, nutricional, psicológico e atividades físicas que demonstrou melhora na qualidade de vida dos pacientes; e tratamentos farmacológicos que evidenciam resultados positivos na redução e remissão do comportamento compulsivo alimentar. A cirurgia bariátrica não é considerada tratamento para Transtorno de Compulsão Alimentar especificamente, e sim para obesidade, pois embora esteja associada ao sobrepeso e a obesidade, são transtornos distintos que podem não ter relação de causa e efeito um com o outro.

Qual é o prognóstico do caso?

O Transtorno de Compulsão Alimentar pode estar associado a maior risco de obesidade e sobrepeso. Implica em danos funcionais, físicos e psicossociais. Tem envolvimento em questões genéticas e fisiológicas e os indivíduos com este transtorno demoram mais a procurar tratamento do que sujeitos com bulimia ou anorexia nervosa, por exemplo. A aplicação de tratamento multidisciplinar e a identificação precoce do transtorno pode dar um prognóstico mais favorável ao sujeito.

Conclusão

Diante do exposto, é válido ressaltar a importância do acompanhamento médico e psicológico do paciente que apresenta Transtorno de Compulsão alimentar desde os primeiros momentos da patologia. O tratamento deve ser multifatorial, envolver diversas modalidades terapêuticas, farmacológicas e não farmacológicas, visto que o acompanhamento psicológico é fundamental para devolver qualidade de vida ao paciente.

Autores e revisores:

Liga: Liga Acadêmica de Saúde Mental – @liasmeunesaj

Autor(a) : Iandy Tarecone de Souza Mateus @sagi.tari e Yanne Fernanda de Barros Rola @yannefernanda

Revisor(a): Raíza Pereira – @raizapereira

Orientador(a): Fátima Vasconcellos

O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.

BLOC, Lucas Guimarães et al. Transtorno de compulsão alimentar: revisão sistemática da literatura. Revista Psicologia e Saúde, v. 11, n. 1, p. 3-17, 2019.

KAPLAN, H.; SADOCK, B.; GREBB, J. Compêndio de Psiquiatria: ciência, comportamento e psiquiatria clínica. 11a Edição, Porto Alegre: Artes Médicas, 2017. PAPELBAUM, Marcelo; APPOLINARIO, José Carlos.

Transtorno da compulsão alimentar periódica e transtorno obsessivo-compulsivo: partes de um mesmo espectro? Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo ,  v. 23, n. 1, p. 38-40,  Mar.  2001. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462001000100010&lng=en&nrm=iso. access on 04 Apr.  2021.

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