Apesar de A priori essa pergunta parecer uma questão de cunho filosófico ou ético, ao analisarmos a fundo, poderemos ver que o tema encontra-se intimamente relacionado ao meio médico-científico inerente ao atual contexto pandêmico em que vivemos. O conhecimento do genoma do Sars-CoV-2, ou seja, o delineamento de todo o seu material genético, mostra-se de grande importância – prova disso é a agilidade com o qual foi decifrado; e o seu compartilhamento entre Instituições, Comunidades Científicas e Países é de igual importância, como veremos.
Antes de aprofundarmos no nosso tema específico, vamos realizar de forma suscinta uma breve recordação sobre esses conceitos importantes.
Apesar de popularmente ser referenciado como Coronavírus, esse termo diz respeito na verdade a família a qual o vírus pertence (Coronaviridae) que incluem múltiplas variantes. Sars-CoV-2, por sua vez, é a nomenclatura oficial da nova variante associada à pandemia que significa “Síndrome Respiratória Aguda Grave – Coronavírus 2”. Já COVID-19 é a terminologia usada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para determinar a doença provocada pela infecção do respectivo agente.
A pandemia de COVID-19 teve início no final de dezembro de 2019 em Wuhan, uma cidade central da China. A doença apresenta manifestações clínicas bastante variadas, dentre as principais destacam-se febre, tosse, mialgia ou fadiga, expectoração e dispneia (XAVIER, 2020).
Para mais informações acerca do tema, visite:
- Coronavírus no Brasil – Ministério da Saúde
- Coronavirus Disease (COVID-19) Pandemic – WHO/OMS
- Confira as Fake News sobre COVID 19 – SANAR MED
O que é Genoma e qual a sua importância?
O termo genoma pode ser entendido como toda e qualquer informação contida no DNA (ou RNA) de um ser vivo. Mais precisamente, é o sequenciamento de todo esse material genético contido em todos os cromossomos (no caso da espécie humana, os 44 autossomos e os 2 sexuais).
Foi exatamente em 26 de junho de 2000 que o Presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o Primeiro Ministro Inglês Tony Blair anunciaram a finalização do sequenciamento das mais de 3,1 bilhões de bases nitrogenadas do genoma humano (Projeto Genoma Humano – PGH). Desde então, a comunidade científica internacional não poupa esforço visando determinar cada vez mais o sequenciamento genético de várias espécies (bactérias, vírus, fungos, plantas, animais).
A importância que tal investigação trouxe para a humanidade é ímpar. A ordem com que os nucleotídeos são dispostos no DNA é que faz com que uma molécula difira da outra, e é por meio do sequenciamento dos genomas que determinamos estas diferenças. Entre muitas conquistas, este progresso permitiu uma melhor compreensão de como falhas ou anormalidades moleculares causam distúrbios (COLLINS, 1999).
Como exemplo dos benefícios impostos por esse processo e pelo advento da Era pós genômica marcante no ramo da Biologia Molecular, sabemos que muito do conhecimento sobre os mecanismos etiológicos e fisiopatológicos de diversas doenças, bem como desenvolvimento de medidas diagnósticas, terapêuticas e profiláticas (medicamentos, vacinas, soros) bebem das informações obtidas pelo conhecimento dos genomas.
O Sars-CoV-2 e o Genoma
O Sars-CoV-2 é um vírus de RNA (do tipo RNA+, devido sua direção de leitura no sentido 5’3’), todo o seu genoma contém pouco menos de 30.000 nucleotídeos, que por ser um agente de RNA são Adenina (A), Citosina (C), Guanina (G) e Uracila (U). Aproximadamente 29 proteínas virais são identificadas entre elas, as mais relevantes são a glicoproteína de pico, reconhecida como proteína S, e a proteína N, do nucleocapsídeo viral. A glicoproteína de pico permite a entrada do vírus na célula hospedeira pela ligação ao receptor celular e à fusão da membrana. A proteína do nucleocapsídeo, por sua vez, regula o processo de replicação viral (UZUNIAN, 2020).

Obtido em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-24442020000100051&lng=en&nrm=iso>.
Apesar do conhecimento acerca do genoma do vírus, não podemos esquecer que o mesmo apresenta múltiplas variantes espalhadas ao longo do globo e mesmo dentro de um mesmo país. No Brasil, os pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Oxford conseguiram determinar em tempo recorde (em 48 horas) o genoma do primeiro caso confirmado de COVID 19 no país, em 26 de fevereiro de 2020 e que este se assemelhava geneticamente mais da variante sequenciada na Alemanha, enquanto o segundo caso observado em 29 de fevereiro do mesmo ano se aproximava mais da variante Inglesa.
Diante de tudo já exposto ao longo deste texto, podemos fomentar a importância do livre e amplo compartilhamento de todas as informações obtidas sobre o Sars-CoV-2.
Primeiro, sequenciar o genoma do vírus nos fornece importantes pistas da sua origem e como ocorre a sua evolução. Dessa forma, podemos esclarecer qual o ponto inicial da pandemia, onde realmente surgiu, como surgiu, como se disseminou, quais os possíveis vetores da doença e quais mecanismos o vírus utiliza para realizar as mutações que modificam seu genoma levando ao surgimento de novas variantes. Não só isso, mas também podemos utilizar essas informações para prever e evitar futuras pandemias. Dessa forma, quanto mais informações houver a respeito do tema, mais facilmente os enigmas são resolvidos e as lacunas preenchidas, e qual forma mais rápida de obter informações do que compartilhá-las entre os diferentes países, instituições e pesquisadores?
Não obstante, os benefícios não se limitam apenas a isso, pelo contrário: o conhecimento acerca do vírus e do seu material genético é de suma importância para o desenvolvimento de medicamentos específicos e eficazes para o seu combate, o desenvolvimento das vacinas e dos testes diagnósticos cada vez mais sensíveis e específicos, a fim de evitar resultados falsos positivos e negativos.
O compartilhamento e a troca de informações sobre o vírus, e, em particular o seu material genético, sem dúvidas auxiliou no rápido desenvolvimento das várias vacinas hoje disponíveis (Pfizer, Moderna, CoronaVac, Oxford/AstraZeneca etc.) e também permite avaliar a eficácia das vacinas já disponíveis em relação às novas variantes que surgem em locais distintos do globo.
Dessa forma, percebemos que apenas pesquisando e compartilhando as informações o mais amplamente possível, todas elas que sejam, é que poderemos sair desse status de calamidade global que nos encontramos, beneficiando principalmente os países mais pobres que não possuem de recursos ou técnicas necessárias para obtê-las por si só. A importância do sequenciamento de nova geração torna-se evidente em casos que necessitam de medicina especializada, na qual o diagnóstico, tratamento e terapias dependem de análises moleculares individuais, como é visto em muitos tipos de câncer. Por outro lado, a utilização difundida desta tecnologia ainda é um desafio devido ao fato de atualmente seu custo ser considerado alto (MELDRUM, 2011).
Autor: Rúther Pacheco, Estudante de Medicina.
Instagram: @joseruther_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências Bibliográficas:
COLLINS, F. S. Shattuck lecture – medical and societal consequences of the human genome project. The New Engl J Med 1999;341(1):28-37. Disponível em: <https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/nejm199907013410106>. Acessado em 16 de Abril de 2021. DOI: 10.1056/NEJM199907013410106
DEL GIACOO, L; CATTANNO C. Introduction to genomics. Methods Mol Biol. 2012;823:79-88. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22081340/>. Acessado em 15 de Abril de 2021. doi: 10.1007/978-1-60327-216-2_6. PMID: 22081340.
MELDRUM, C.; DOYLE, M. A.; TOTHILL, R. W. Next-generation sequencing for cancer diagnosis – a pratical perspective. Clin Biochem Rev 2011;32:177-195. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22147957/>. Acessado em: 16 de Abril de 2021.
UZUNIAN, Armênio. Coronavírus SARS-CoV-2 e Covid-19. J. Bras. Patol. Med. Lab., Rio de Janeiro, v. 56, e3472020, 2020. Disponível em:
VASQUES, Lucas H. Genoma do novo coronavírus e sua trajetória no Brasil. Disponível em: <https://profissaobiotec.com.br/genoma-do-novo-coronavirus-e-sua-trajetoria-no-brasil/>. Acessado em 16 de Abril de 2021. Publicado em 29 de Abril de 2020.
XAVIER, Analucia R. et al. COVID-19: manifestações clínicas e laboratoriais na infecção pelo novo coronavírus. J. Bras. Patol. Med. Lab., Rio de Janeiro, v. 56,e3232020, 2020. Disponível em: