Parasitoses intestinais na infância: confira o artigo do Dr. José Antônio Faria, médico pediatria e coordenador da pós em pediatria da Sanar!
As parasitoses intestinais na infância continuam sendo um problema de saúde pública relevante, especialmente em áreas com condições sanitárias precárias.
Estima-se que mais de 880 milhões de crianças no mundo necessitem de intervenções antiparasitárias, com destaque para os helmintos Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura, Ancylostoma duodenale e Necator americanus.
Impacto clínico das parasitoses em crianças
As infecções parasitárias intestinais afetam diretamente o estado nutricional, o crescimento, o desempenho escolar e o bem-estar geral das crianças. Ainda que muitos casos sejam assintomáticos, é comum a presença de sinais e sintomas como:
- Dor abdominal crônica ou intermitente;
- Diarreia persistente;
- Anemia ferropriva;
- Perda ponderal;
- Prolapso retal (especialmente em trichiuríase maciça).
Dessa forma, o reconhecimento clínico precoce pode evitar complicações nutricionais e cognitivas de longo prazo.
Diagnóstico das parasitoses intestinais
O exame parasitológico de fezes continua sendo o método diagnóstico de escolha. Para aumentar sua sensibilidade, é recomendada a coleta de três amostras em dias alternados, sobretudo em regiões de alta endemicidade.
Entre os métodos laboratoriais disponíveis, destacam-se:
- Sedimentação espontânea (método de Lutz): mais acessível e com bom rendimento.
- Técnica de Kato-Katz: útil na quantificação de ovos de helmintos.
- Fita adesiva perianal (técnica de Graham): indicada para suspeita de oxiuríase.
- Testes moleculares (PCR): maior especificidade e sensibilidade, embora ainda restritos a laboratórios especializados.
Tratamento das verminoses pediátricas
O tratamento deve ser direcionado ao agente etiológico, porém em regiões endêmicas, estratégias de desparasitação empírica são frequentemente adotadas. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o uso racional de antiparasitários seguros e eficazes é fundamental para evitar resistência e efeitos adversos.
Em locais com alto índice de infestação e saneamento básico inadequado, recomenda-se o tratamento comunitário anual ou bianual, geralmente com albendazol ou mebendazol. No entanto, nos grandes centros urbanos com bom nível socioeconômico, a conduta atual é tratar apenas:
- Casos sintomáticos;
- Crianças com alterações nos exames de fezes.
Assim, essa abordagem seletiva reduz o uso indiscriminado de antiparasitários e promove melhor acompanhamento clínico.
Quadro comparativo: antiparasitários indicados na infância
| Fármaco | Parasitas tratados | Dose pediátrica | Duração |
|---|---|---|---|
| Albendazol | Ascaris, Trichuris, Ancylostoma, Enterobius, Taenia, Hymenolepis, Giardia | 400 mg VO dose única (200 mg se <2 anos) | 1 dose / 3–7 dias |
| Mebendazol | Ascaris, Enterobius, Trichuris, Ancylostoma | 100 mg VO 2x/dia | 3 dias |
| Ivermectina | Strongyloides, Ascaris, Trichuris, Enterobius | 200 mcg/kg VO/dia | 1–2 dias |
| Pamoato de Pirantel | Ascaris, Enterobius, Ancylostoma | 11 mg/kg VO (máx. 1g) | 1–3 dias |
| Nitazoxanida | Giardia, Cryptosporidium, E. histolytica, vários helmintos | 7,5 mg/kg/dose VO 2x/dia (máx. 500 mg) | 3 dias |
| Praziquantel | Taenia, Hymenolepis, Diphyllobothrium | 5–10 mg/kg VO (teníase); 25 mg/kg VO (himenolepíase) | Dose única |
| Niclosamida | Taenia, Hymenolepis | 50 mg/kg VO (máx. 2g), repetir por 6 dias se necessário | 1 dose ou +6 dias |
| Metronidazol | Giardia, E. histolytica, B. coli, Blastocystis | 15 mg/kg/dia VO dividido 3x | 5–7 dias |
| Secnidazol | Giardia, E. histolytica | 30 mg/kg VO | Dose única |
| Tinidazol | Giardia, E. histolytica | 50 mg/kg VO (≥3 anos) | Dose única |
| SMX-TMP (Bactrim) | Isospora belli, Cyclospora cayetanensis | 8–10 mg/kg/dia de TMP, VO 2x/dia | 7–10 dias |
Estratégias de prevenção: pilar essencial no controle
Embora o tratamento medicamentoso seja essencial, medidas preventivas são a chave para interromper a cadeia de transmissão das verminoses. Entre as principais estratégias de prevenção, destacam-se:
- Acesso a água potável e saneamento básico;
- Lavagem correta das mãos, especialmente antes das refeições e após usar o banheiro;
- Higienização adequada dos alimentos crus;
- Evitar andar descalço em terrenos potencialmente contaminados.
Dessa forma, em escolas e creches, ações de educação em saúde devem ser contínuas, com foco em higiene pessoal e no combate às infecções como giardíase e oxiuríase.
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Referência bibliográfica
Sociedade Brasileira de Pediatria. Parasitoses intestinais: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização nº 7, Nov 2020. Departamentos Científicos de Gastroenterologia e Infectologia (2019-2021).
