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Resumo de Apendicite Aguda em crianças e adolescentes | Ligas

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Autora: Nicolle
Fraga Coelho

Coautora: Luiza
Gabriela Noronha Santiago

Revisora: Vitória de Rezende Rocha

Orientador: Júlio
César Veloso

Liga: Liga Acadêmica de Pediatria UFSJ CCO (LIPED) – @lipedufsj

Definição

A apendicite é uma urgência
cirúrgica caracterizada pela inflamação do apêndice, uma massa produtora de
muco localizada na face inferior do ceco, com comprimento variável entre 2 a 20cm.
A maior parte das apendicites tem caráter idiopático.

Epidemiologia

  • Principal emergência cirúrgica abdominal
    na população pediátrica.
  • Maior incidência em adolescentes em
    torno dos 15 anos.
  • Rara em crianças <5 anos.
  • Incidência de perfuração alta (40%) em
    lactentes devido ao lúmen diminuído e menor limiar de pressão para perfuração.
  • Em crianças, a apresentação clássica
    pode não se manifestar em 50% dos casos.
  • A mortalidade após apendicite é rara
    (<0,3%), sendo observada, principalmente, em recém-nascidos e pacientes
    imunossuprimidos.

Fisiopatologia

Inicialmente há uma obstrução da
luz do apêndice, a qual favorece o crescimento bacteriano, o que predispõe à
infecção. Soma-se a esse cenário, a produção continuada de muco em um ambiente
ocluso, o que acarreta o aumento de pressão da parede apendicular, com
consequente distensão das paredes luminais, referida pelo paciente por meio da
dor periumbilical. O desenvolvimento de um processo inflamatório no local pode
atingir estruturas adjacentes, tal como o peritônio, e causar dor no quadrante
abdominal inferior direito (QID). A intensidade e o tempo de resposta
infamatória podem gerar complicações como isquemia, gangrena e perfuração.
Entre os fatores predisponentes à obstrução, pode-se citar: presença de
fecalomas, hiperplasia linfoide, neoplasia, parasitas. É válido destacar que o
processo inflamatório decorrente da obstrução pode acontecer de maneira
isolada, sem que haja um processo infeccioso secundário.

Quadro Clínico Baseado
em Caso Clínico

Paciente A.C.T, sexo masculino,14
anos e 9 meses, deu entrada no pronto atendimento acompanhado pela mãe,
queixando-se de dor abdominal aguda iniciada a aproximadamente 10 horas.

Paciente relata que ao se arrumar
para a escola começou a sentir uma dor fraca e em surtos na região
periumbilical
com uma leve indisposição. Segundo relato, a dor
intensificou-se nas últimas horas e mudou de localização, sendo agora mais
intensa no quadrante inferior direito. Paciente também relata
dificuldade para alimentar devido à falta de apetite e ao enjoo,
nega vômitos.

O adolescente não possui
histórico de cirurgias prévias. Nega quedas recentes ou trauma acidental de
outra ordem. Mãe relata ausência de doenças crônicas nela e no pai do paciente,
avós paternos possuem hipertensão arterial e avó materna hipotireoidismo.

O paciente encontra-se em estado
geral regular; corado; hidratado; pressão arterial: 120/78 mmHg, temperatura: 38°C;
frequência respiratória: 17 irpm e frequência cardíaca em
repouso: 85 bpm
.

Ao exame físico, observa-se cautela
ao caminhar
e dificuldade para subir na maca, abdome tipicamente
plano e sons intestinais normais. Paciente apresenta sinal de descompressão
brusca positivo
durante palpação da fossa ilíaca direita – sinal de
Blumberg positivo
. Ausência de outras alterações físicas.

A principal hipótese diagnóstica,
lavando em conta os achados clínicos e epidemiológicos, é de apendicite
aguda
. Foi solicitado que o paciente realize exames laboratoriais
(hemograma, Proteína C reativa e urina) e de imagem (ultrassonografia
abdominal), para confirmação do diagnostico, além de uma avaliação com o
cirurgião.

Sintomas e sinais clássicos:

  • Mal-estar
    generalizado e anorexia nas primeiras horas.
  • Dor
    abdominal aguda:

    • Primeiras 12 horas à Dor vaga, em cólicas, com
      localização periumbilical e sem relação com a posição.
    • 12-24 horas-à dor estável, mais intensa, localizada no quadrante
      inferior direito e é intensificada pelo movimento.
  • Náuseas
    e vômitos são comuns em mais da metade dos pacientes.
  • Diarreia
    e sintomas urináriosà
    mais prevalente em apendicite perfurada.
  • Febre
    geralmente baixa, podendo ser alta em casos de perfuração.
  • Taquicardia
    branda.
  • Após
    a perfuração:

    • Sintomas tendem a ser menos previsíveis.
    • Redução inicial da dor e sintomas agudos.
    • Dor abdominal difusa.
    • Hipotensão.
    • Oligúria.
    • Acidose.
    • Febre alta.
    • Sintomas tendem a ser menos previsíveis.
    • Após vários dias àsintomas de obstrução do intestino delgado
  • Achados
    ao exame físicos.

    • Sensibilidade abdominal localizadaà
      tipicamente no quadrante inferior direito.

      • Sensibilidade no ponto de Mcburney.
      • Sinal de Blumberg à dor a descompressão súbita no ponto de Mcburney.
      • Sinal de Rovsingà dor referida na fossa ilíaca direita à compressão no
        quadrante inferior esquerdo.
      • Sinal de Dunphyà dor a percussão no ponto de MacBurney que piora ao
        tossir.
      • Sinal do Psoasà dor a extensão da coxa direita, sobre o quadril,
        contra a resistência em decúbito lateral esquerdo.
      • Sinal do Obturador à dor à rotação interna do
        quadril direito flexionado em decúbito.
    • Rigidez do musculo do reto sobrejacente
    • Distensão abdominalà sugere doença mais avançada.
    • Ausculta com sons intestinais normais ou
      hiperativa no início, podendo ser substituído por sons hipoativos do intestino
      quando progride para a perfuração.

Sintomas e sinais ocasionais

  • Paciente
    pode apresentar-se faminto.
  • Apêndice
    com localização retrocecal:

    • Evolução lenta à 4-5 dias de doença antes da procura para avaliação,
      geralmente.
    • Dor abdominal aguda se apresenta lateral e
      posterior.

Achados Laboratoriais
e Exames de Imagem

Os achados laboratoriais,
normalmente, não são muito sensíveis ou específicos para o diagnóstico de
apendicite aguda, porém servem de norteador de urgência para a tomada de decisões
medicas, como a necessidade imediata de uma cirurgia ou necessidade de outros
exames complementares antes.

  • Leucograma:
    • Normal, nas primeiras 24 horas.
    • Aumento discreto da contagem de leucócitos na
      progressão da doença, 24-48 horas.
    • Na apendicite perfurada pode ser acentualmente elevado.
  • Proteína
    C reativa aumenta proporcionalmente ao grau de inflamação do apêndice
  • Proteína
    sérica amiloide A é consistentemente elevada em casos de apendicite aguda.
  • Urina
    tipo I:

    • Piúria: pode estar presente, principalmente em
      idosos.
    • Hematúria microscópica

Os exames de imagem têm alta
especificidade e sensibilidade, por isso são ótimas ferramentas para
diagnóstico de apendicite aguda.

  • Ultrassonografia
    (US) abdominal – método mais utilizado: não é invasivo, sem exposição à
    radiação ionizante, não demanda preparação do paciente.
  • Tomografia
    computadorizada – é o padrão ouro na realização de imagens. Sensibilidade e
    especificidade muito semelhantes a US. Deve ser usado como segunda escolha ou
    em casos que o US não estiver disponível ou o resultado for inconclusivo.

Diagnóstico

Para o diagnóstico de apendicite
aguda ser feito de maneira satisfatória é necessária uma anamnese e de um exame
físico cuidadoso que pode contar com a auxílio dos exames laboratoriais e de imagem.
A dor na descompressão brusca e a dor referida a compressão no ponto de
Mcburney (junção dos terços lateral e médio da linha que une a crista ilíaca
anterior-superior e o umbigo) são achados consistentes de apendicite aguda,
porém nem sempre estão presentes.

Quando os exames de imagem são usados
seletivamente em crianças com diagnósticos duvidosos, a eficácia deles é
máxima. Deve-se começar com o uso da ultrassonografia e usar a TC apenas quando
a US for inconclusiva ou não estiver disponível.

Deve se considerar como
diagnóstico diferencial de dor abdominal aguda em adolescentes: gastroenterite
ou gastrite aguda, constipação, ITU e litíase renal. Se a paciente for do sexo
feminino deve ser acrescentado: dor ovulatória, dismenorreia, gravidez ectópica,
aborto retido e torsão ovariana.

Tratamento

Com o diagnóstico confirmado ou
altamente suspeito para apendicite aguda, cotidianamente utiliza-se como
tratamento a apendicectomia imediata. A cirurgia deve ocorrer de maneira
semi-eletiva de 12 a 24 horas após o diagnóstico. O uso criterioso de morfina como
analgesia para aliviar a dor não muda a acurácia diagnóstica ou interfere na
tomada de decisões, assim o tratamento da dor pode começar antes do diagnóstico
ser definido.

É recomendado corrigir no pré-operatório
a volemia e a febre das crianças, se for necessário. Em pacientes com a
apendicite perfurada, no momento do diagnóstico, a operação é menos urgente,
sendo mais importante estabilizar o paciente, pois eles podem demonstrar
significativas alterações fisiológicas, como desidratação, acidose e
hipotensão. A apendicectomia de emergência só dever ser realizada quando a
ressuscitação fisiológica exija controle imediato da sepse e que isso não possa
ser feito pela drenagem intervencionista ou a técnica não estiver disponível.

Após a cirurgia a criança ou
adolescente continua com antibióticos, comumente, por 24 horas. A alta
hospitalar tende a ocorrer no período de 24 a 48 horas. Em casos de apendicite
perfurado a quantidade média de dias de antibiótico e internação se alteram.

Existem também tratamentos com
antibióticos e radiológicos, que permitem drenar o acúmulo de líquido, esses seriam
uma alternativa ao tratamento cirúrgico. Entretanto, essa conduta depende do
estado geral do paciente e do apêndice.

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