A asma é um problema mundial de saúde, sendo conceituada como uma doença inflamatória crônica. Os pacientes cursam com episódios de crises com sintomas respiratórios, os quais podem ser desencadeados por gatilhos específicos, como os alérgenos. Com importante epidemiologia e possibilidade de controle, a asma deve ser entendida por todos os clínicos, em especial na Atenção Primária à Saúde.
Introdução
A asma acomete cerca de 300 milhões de pessoas, sendo 20 milhões apenas no Brasil, atingindo crianças e adultos de ambos os sexos. Sua maior prevalência está nos países desenvolvidos, entre as populações com baixas condições socioeconômicas, devido a fatores como a urbanização e a poluição. Estudos apontam que os custos com esta doença podem alcançar 25% da renda familiar em análise de classes menos favorecidas economicamente. Por ser uma doença crônica, seu tratamento objetiva controlar as crises, as quais possuem o potencial de agravamento, inclusive hospitalização. Como principais critérios de classificação encontram-se os gatilhos, sendo a Asma Alérgica o tipo mais comum. Os sintomas podem ser confundidos com outros distúrbios do sistema respiratório, logo torna-se importante a elucidação de quais os meios para reconhecer um indivíduo asmático.
Manifestações Clínicas e Patogenia
Inicialmente, tendo em vista que a asma alérgica atinge 90% dos asmáticos, vale ressaltar o conceito de alérgenos. Estas substâncias são por vezes ambientais e inócuas para a maioria dos indivíduos. Nos casos dos alérgicos, tais substâncias têm a capacidade de sensibilizar e ativar diversas células imunológicas que desencadeiam uma rede de mecanismos inflamatórios. Alguns exemplos de alérgenos são o pólen, ácaros, substâncias presentes nos perfumes, pelos de animais e o mofo.
Uma vez que a asma se trata de uma doença de hipersensibilidade, ou seja, um distúrbio causado por ações do sistema de defesa desreguladas, é necessário entender os mecanismos do sistema imune. Pesquisas demonstraram a produção elevada de IgE nos atópicos, o que, aliado a fatores genéticos e epigenéticos, predispõe indivíduos a desenvolver a asma. A IgE em altos níveis séricos liga-se à antígenos de alérgenos e ativa os mastócitos que em uma segunda exposição ao mesmo alérgeno se encontrará sensibilizado e irá sofrer degranulação, liberando substâncias pró-inflamatórias pré-formadas, como a histamina, e neoformadas, como os leucotrienos e as prostaglandinas. O processo inflamatório agudo que se segue minutos após a exposição ao alérgeno causa o edema, a broncoconstricção e a hipersecreção de muco, responsáveis pelos sintomas das crises.
Diante de um indivíduo com problemas respiratórios, para identificar a possibilidade asma é necessário detectar os sintomas clássicos: tosse, sibilos, dispneia e opressão da caixa torácica. A existência de um ou mais destes sintomas varia de paciente para paciente, além de poderem vir acompanhados de ansiedade e sudorese. O mais comum é que o quadro tenha inicio durante a noite, mas é possível ocorrer também nas primeiras horas da manhã. Muitas vezes o paciente relata que a crise é desencadeada pela presença de algo em específico, o que apontará para o fator alérgico. Os sibilos são causados pela aceleração e turbilhonamento do ar nas vias aéreas estreitadas (inflamadas, com edema e lúmen diminuído), e por vezes são audíveis sem o estetoscópio nos casos mais agravados.
Métodos Diagnósticos
O diagnóstico de asma fundamenta-se em uma anamnese detalhada, análise clínica associada à exames complementares e exclusão de outras etiologias. Na anamnese deve-se procurar os aspectos da crise asmática:
- Sintomas: sibilos, tosse, opressão torácica e dispneia;
- Início geralmente durante a noite ou nas primeiras horas do dia;
- Variabilidade dos sintomas;
- Desencadeamento por exposição à fatores específicos, como alérgenos ou exercícios;
- Surgimento dos sintomas após a idade adulta relacionados com questões ocupacionais;
- Histórico de asma ou doença alérgica na família.
O exame físico pode ser inconclusivo, contudo, em alguns casos pode evidenciar a sibilância. Então o clínico deve solicitar alguns exames, como os funcionais, bioquímicos ou de imagem. O principal exame funcional é a espirometria, que irá apontar à redução do Volume Expiratório Forçado no Primeiro Segundo (VEF1), devido a obstrução das vias aéreas e a subsequente resistência ao fluxo de ar. Há também o PFE (Pico Expiratório Forçado), importante não só para diagnóstico, mas também para monitoramento da asma. Dentre os exames bioquímicos é possível solicitar exames de sangue e de escarro, que irão demonstrar índices como a eosinofilia e a elevação sérica de IgE. Em casos de persistência de dúvida, os exames de imagem são possíveis esclarecedores. A radiografia simples de tórax pode excluir outros diagnósticos ou complicações, como tumores ou pneumotórax, podendo ser normal em pacientes asmáticos ou com anormalidades inespecíficas. A tomografia computadorizada de tórax evidenciará o espessamento da parede brônquica.
Considerações Finais
Tamanho o impacto causado pela asma a nível mundial, surgiu a necessidade de um esforço ao mesmo nível para aprimorar a detecção e controle dos acometidos por esta patologia. A GINA (Global Iniciative for Ashtma) surgiu como uma estratégia apoiada por diversos países, que busca reduzir a prevalência, morbidade e mortalidade da asma, através da divulgação de panfletos, livros e eventos, além da realização de cursos de aprimoramento para educação permanente de profissionais em saúde. Para mais informações acesse: GINA
Autora: Maria Jayne Lira de Araújo
Instagram: @mjayne.lira
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
GOLDMAN L.; AUSIELLO D. Cecil. Medicina. 25. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma. Jornal Brasileiro de Pneumologia.São Paulo, 2006. v. 32, supl. 7, p. S447-S474.